quarta-feira, 23 de abril de 2008

Cinco Minutos.

Sempre me disseram que vivo fora de órbita, devagar, remando contra a maré. É como se eu vivesse em uma contínua via de mão dupla, mas, sempre na contramão. O que me morde é que nunca entendi ao certo o que me diferencia e me exclui dessa realidade, o porquê do compasso dos relógios alheios não estarem em sintonia ao meu. A única coisa que sei é que o meu tempo passa em um ritmo totalmente avesso ao dos demais e que isso não se trata de uma arritmia ou de pilhas fracas...
Nove de outubro de 1994, meio dia, metrô de São Paulo. Entro, me sento. Ao meu redor, fantoches cabisbaixos, de olhos atentos ao pulso, retrato da perplexidade e escravidão voluntária do ser. Observo a minha esquerda, dois bancos à frente, duas senhoras (que, provavelmente, não sabem da influência do tempo na intensidade de suas rugas) entretidas em uma conversa passageira (para quem?). Cinco (e longos, para mim) minutos depois, a mais nova, de casaco branco e fita nos cabelos, vem ao meu encontro e senta-se. Suspira profundamente, e permite-se: Essas pessoas que se sentam ao nosso lado e contam sua vida inteira em cinco minutos não são fáceis de agüentar... Eu até ouço algumas vezes, mas hoje..., não tenho tempo a perder,
Com um superficial sorriso, finjo concordar com a afirmação afim de não prolongar a prosa. Não a prolongo com a senhora, mas meus pensamentos voam e se perdem na agonia sem fim dos ‘fantasmas’ ao meu redor: Em que espaço e tempo ficou perdido os aproximadamente 65 anos – se as aparências não me enganam - daquela senhora que, de tão insignificantes anos, cabem em cinco minutos? Teria ela filhos, netos? Teria ela visto e vivido o primeiro choro, a primeira mamada, os primeiros passos ou as primeiras arriscadas da fala? Visto, é provável que sim, mas, levando-se em conta todos esses acontecimentos resumidos em cinco minutos, que espécie de emoção eles tiveram na realidade? É triste perceber que a orquestra da vida é regida pelo ‘tic-tac’ dos pulsos. E não digo este, fruto de emoções pulsantes e instintos venais, mas da frieza eletrônica dos relógios de Dumont... Que sentido dão à vida? Que registros levam dela?
Meia hora depois, aquela de casaco branco, me desperta de meus pensamentos fingindo uma amizade feita em menos de dez segundos de diálogo: Até mais. Fique bem. Respondo com um aceno.
Mais algum tempo, chega a vez da ‘recém nascida nos últimos cinco minutos’. Ela, apoiada por bengalas, olha para todos com certa expressão de bondade, e abre caminho rumo a sua estação. Aqueles olhos, aquele sorriso, aquelas pernas que, de tão cansadas, não se apóiam mais voluntariamente, não são frutos de corriqueiros cinco minutos. Existe mais entre o que ela é e o que o casaco branco com fitas no cabelo julga sê-la... A diferença é que essa, não dispõe de tempo para saber...
E assim, ela sai. Apóia-se em sua bengala, e vira-se para o vagão como em forma de despedida. Aquele olhar... Aquele olhar de alguém perdido no tempo me hipnotiza. E assim, o vagão anda e a vejo ficando cada vez mais para trás, juntamente com sua ‘minutânea’ vida.

2 comentários:

->Marcelo Santos disse...

Na real era pra esperar o Pedro que ele ia falar com a Tania hoje a tarde e depois postar o texto que ele queria falando da reunião e do blog. Mas se tu quiser mesmo, me da teu email (ele não me passo os emails ainda..) que eu te mando.
Ps: O texto tá muito bem escrito pra alguém da 1ª fase.

Michelle Martins de Oliveira disse...

Carammmbaaa!! Que texto perfeito!!
Eu me sinto também na contramão, sempre querendo voltar a anterior estação...
"E depois, um dia você descobrirá que dez anos ficaram para trás, ninguém te disse quando correr, você perdeu o tiro de partida..."
Time - Pink Floyd
http://letras.terra.com.br/pink-floyd/115726/

Às vezes a gente perde um ônibus, mas sabe que vem o próximo, e esse próximo pode demorar 5 minutos de uma vida inteira "com seus botões"

Viajei em teu texto como se fosse uma cena de um filme *-*
Amei, ameeeei!!
Parabéééééénsss!!!