É que eu tenho medo, medo de tanta coisa! Medo do medo. Medo, na verdade.
Medo de não ser o suficiente para nao se ter medo. Medo de ser.
Medo de sentir medo outra vez e, novamente medo.
Medo de nada disso, nada daquilo ser verdade.
Medo de que eu demore tempo demais para ver o que meus olhos já enxergam.
Medo, só medo. E por fim, medo.
sexta-feira, 3 de abril de 2009
terça-feira, 6 de maio de 2008
Algo sobre as mulheres do séc. 21
Escolhi uma crônica que escrevi ainda no ensino médio... Acho que o assunto é bem paralelo à falsa imagem de que tudo no jornalismo é perfeito, fantástico... Bem, talvez quando escrevi, acreditasse que fosse... sonhos, sonhos... Ok, como os dias das mães também está logo aí, acho que pode ser relacionado... Espero que gostem, beijos, Lulu.
Tenho alguns anos e ainda tenho a sensação de que minha vida está quase acontecendo, que o início de todo o resto está a qualquer momento pra bater a minha porta, a chegar na calada da noite e dizer como vai ser tudo daqui pra frente. E, de fato chega.O despertador toca. Pulo da cama, certa de que com meu charme, confiança e modéstia, o dia está ganho. Vamos Luiza, o dia apenas começou. Banho, escovar os dentes, ligar o som e escolher a roupa como que um ritual, maquiagem, cabelo, sapatos (altos, muito altos, por favor), bolsa, óculos escuros, chave do carro (aliás, que carro!), rua. Linda. Sei quem sou e pra onde vou. Segura de mim mesma, eu me basto.Reunião as nove, programa indo ao ar as onze. Calma Luiza, você sabe que dá conta.Ai meu Deus! Nove horas e eu aqui nesse trânsito! A diretoria vai me matar! Calma Luiza, você vai dar um jeito, sempre dá. Nove e vinte. Estacionamento e pausa para o batom em meio à correria. Triunfante e com secretárias enlouquecidas atrás de mim, adentro a sala da diretoria. Câmera lenta, sorriso estampado, perfume no ar. Lá se vai qualquer vestígio de reprovação, afinal, o que são vinte minutinhos perto da minha competência e produção? Conseguiu mais uma vez, parabéns. Mérito seu.Diretoria embasbacada com meus projetos. Reunião foi um sucesso! Nossa, hoje eu realmente estou me superando.Dez horas, falta pouco, celular toca. Fala Maria. Oi dona Luiza, só pra avisar que o Pedrinho já foi pra colégio e que hoje ele sai mais cedo. A senhora vai poder ‘pegar ele’? Pausa. Senhora? Meu Deus. Ta certo, sou mãe, mas, Senhora? Voltando... Ok Maria, eu pego ele. To entrando na maquiagem, o programa vai ao ar em meia hora. Ligo depois. Dez e meia, última checagem na redação. Onze horas: Bom dia. Está começando o jornal notícia...Meio dia, convites para o almoço no meio do corredor. Luiza! Gostaria de conversar com você sobre... ou, Luiza, posso te convidar para um almoço? Sabe, eu queria uma opinião sua...Três horas. Estacionamento, amarrar os cabelos, se despir de super mulher. Agora, não sou Dona Luiza ou Luiza Zeccer. Agora sou mãe. E lá está ele me esperando com aquele sorriso que me encanta. Pedrinho se despede dos coleguinhas e corre pra me dar um abraço. Dali iremos para casa, brincaremos de carrinho e prepararei um lanche da tarde. Nunca estive tão realizada. Nunca fui tão... Luiza. Ganho o meu dia.
Tenho alguns anos e ainda tenho a sensação de que minha vida está quase acontecendo, que o início de todo o resto está a qualquer momento pra bater a minha porta, a chegar na calada da noite e dizer como vai ser tudo daqui pra frente. E, de fato chega.O despertador toca. Pulo da cama, certa de que com meu charme, confiança e modéstia, o dia está ganho. Vamos Luiza, o dia apenas começou. Banho, escovar os dentes, ligar o som e escolher a roupa como que um ritual, maquiagem, cabelo, sapatos (altos, muito altos, por favor), bolsa, óculos escuros, chave do carro (aliás, que carro!), rua. Linda. Sei quem sou e pra onde vou. Segura de mim mesma, eu me basto.Reunião as nove, programa indo ao ar as onze. Calma Luiza, você sabe que dá conta.Ai meu Deus! Nove horas e eu aqui nesse trânsito! A diretoria vai me matar! Calma Luiza, você vai dar um jeito, sempre dá. Nove e vinte. Estacionamento e pausa para o batom em meio à correria. Triunfante e com secretárias enlouquecidas atrás de mim, adentro a sala da diretoria. Câmera lenta, sorriso estampado, perfume no ar. Lá se vai qualquer vestígio de reprovação, afinal, o que são vinte minutinhos perto da minha competência e produção? Conseguiu mais uma vez, parabéns. Mérito seu.Diretoria embasbacada com meus projetos. Reunião foi um sucesso! Nossa, hoje eu realmente estou me superando.Dez horas, falta pouco, celular toca. Fala Maria. Oi dona Luiza, só pra avisar que o Pedrinho já foi pra colégio e que hoje ele sai mais cedo. A senhora vai poder ‘pegar ele’? Pausa. Senhora? Meu Deus. Ta certo, sou mãe, mas, Senhora? Voltando... Ok Maria, eu pego ele. To entrando na maquiagem, o programa vai ao ar em meia hora. Ligo depois. Dez e meia, última checagem na redação. Onze horas: Bom dia. Está começando o jornal notícia...Meio dia, convites para o almoço no meio do corredor. Luiza! Gostaria de conversar com você sobre... ou, Luiza, posso te convidar para um almoço? Sabe, eu queria uma opinião sua...Três horas. Estacionamento, amarrar os cabelos, se despir de super mulher. Agora, não sou Dona Luiza ou Luiza Zeccer. Agora sou mãe. E lá está ele me esperando com aquele sorriso que me encanta. Pedrinho se despede dos coleguinhas e corre pra me dar um abraço. Dali iremos para casa, brincaremos de carrinho e prepararei um lanche da tarde. Nunca estive tão realizada. Nunca fui tão... Luiza. Ganho o meu dia.
quarta-feira, 23 de abril de 2008
Cinco Minutos.
Sempre me disseram que vivo fora de órbita, devagar, remando contra a maré. É como se eu vivesse em uma contínua via de mão dupla, mas, sempre na contramão. O que me morde é que nunca entendi ao certo o que me diferencia e me exclui dessa realidade, o porquê do compasso dos relógios alheios não estarem em sintonia ao meu. A única coisa que sei é que o meu tempo passa em um ritmo totalmente avesso ao dos demais e que isso não se trata de uma arritmia ou de pilhas fracas...
Nove de outubro de 1994, meio dia, metrô de São Paulo. Entro, me sento. Ao meu redor, fantoches cabisbaixos, de olhos atentos ao pulso, retrato da perplexidade e escravidão voluntária do ser. Observo a minha esquerda, dois bancos à frente, duas senhoras (que, provavelmente, não sabem da influência do tempo na intensidade de suas rugas) entretidas em uma conversa passageira (para quem?). Cinco (e longos, para mim) minutos depois, a mais nova, de casaco branco e fita nos cabelos, vem ao meu encontro e senta-se. Suspira profundamente, e permite-se: Essas pessoas que se sentam ao nosso lado e contam sua vida inteira em cinco minutos não são fáceis de agüentar... Eu até ouço algumas vezes, mas hoje..., não tenho tempo a perder,
Com um superficial sorriso, finjo concordar com a afirmação afim de não prolongar a prosa. Não a prolongo com a senhora, mas meus pensamentos voam e se perdem na agonia sem fim dos ‘fantasmas’ ao meu redor: Em que espaço e tempo ficou perdido os aproximadamente 65 anos – se as aparências não me enganam - daquela senhora que, de tão insignificantes anos, cabem em cinco minutos? Teria ela filhos, netos? Teria ela visto e vivido o primeiro choro, a primeira mamada, os primeiros passos ou as primeiras arriscadas da fala? Visto, é provável que sim, mas, levando-se em conta todos esses acontecimentos resumidos em cinco minutos, que espécie de emoção eles tiveram na realidade? É triste perceber que a orquestra da vida é regida pelo ‘tic-tac’ dos pulsos. E não digo este, fruto de emoções pulsantes e instintos venais, mas da frieza eletrônica dos relógios de Dumont... Que sentido dão à vida? Que registros levam dela?
Meia hora depois, aquela de casaco branco, me desperta de meus pensamentos fingindo uma amizade feita em menos de dez segundos de diálogo: Até mais. Fique bem. Respondo com um aceno.
Mais algum tempo, chega a vez da ‘recém nascida nos últimos cinco minutos’. Ela, apoiada por bengalas, olha para todos com certa expressão de bondade, e abre caminho rumo a sua estação. Aqueles olhos, aquele sorriso, aquelas pernas que, de tão cansadas, não se apóiam mais voluntariamente, não são frutos de corriqueiros cinco minutos. Existe mais entre o que ela é e o que o casaco branco com fitas no cabelo julga sê-la... A diferença é que essa, não dispõe de tempo para saber...
E assim, ela sai. Apóia-se em sua bengala, e vira-se para o vagão como em forma de despedida. Aquele olhar... Aquele olhar de alguém perdido no tempo me hipnotiza. E assim, o vagão anda e a vejo ficando cada vez mais para trás, juntamente com sua ‘minutânea’ vida.
Nove de outubro de 1994, meio dia, metrô de São Paulo. Entro, me sento. Ao meu redor, fantoches cabisbaixos, de olhos atentos ao pulso, retrato da perplexidade e escravidão voluntária do ser. Observo a minha esquerda, dois bancos à frente, duas senhoras (que, provavelmente, não sabem da influência do tempo na intensidade de suas rugas) entretidas em uma conversa passageira (para quem?). Cinco (e longos, para mim) minutos depois, a mais nova, de casaco branco e fita nos cabelos, vem ao meu encontro e senta-se. Suspira profundamente, e permite-se: Essas pessoas que se sentam ao nosso lado e contam sua vida inteira em cinco minutos não são fáceis de agüentar... Eu até ouço algumas vezes, mas hoje..., não tenho tempo a perder,
Com um superficial sorriso, finjo concordar com a afirmação afim de não prolongar a prosa. Não a prolongo com a senhora, mas meus pensamentos voam e se perdem na agonia sem fim dos ‘fantasmas’ ao meu redor: Em que espaço e tempo ficou perdido os aproximadamente 65 anos – se as aparências não me enganam - daquela senhora que, de tão insignificantes anos, cabem em cinco minutos? Teria ela filhos, netos? Teria ela visto e vivido o primeiro choro, a primeira mamada, os primeiros passos ou as primeiras arriscadas da fala? Visto, é provável que sim, mas, levando-se em conta todos esses acontecimentos resumidos em cinco minutos, que espécie de emoção eles tiveram na realidade? É triste perceber que a orquestra da vida é regida pelo ‘tic-tac’ dos pulsos. E não digo este, fruto de emoções pulsantes e instintos venais, mas da frieza eletrônica dos relógios de Dumont... Que sentido dão à vida? Que registros levam dela?
Meia hora depois, aquela de casaco branco, me desperta de meus pensamentos fingindo uma amizade feita em menos de dez segundos de diálogo: Até mais. Fique bem. Respondo com um aceno.
Mais algum tempo, chega a vez da ‘recém nascida nos últimos cinco minutos’. Ela, apoiada por bengalas, olha para todos com certa expressão de bondade, e abre caminho rumo a sua estação. Aqueles olhos, aquele sorriso, aquelas pernas que, de tão cansadas, não se apóiam mais voluntariamente, não são frutos de corriqueiros cinco minutos. Existe mais entre o que ela é e o que o casaco branco com fitas no cabelo julga sê-la... A diferença é que essa, não dispõe de tempo para saber...
E assim, ela sai. Apóia-se em sua bengala, e vira-se para o vagão como em forma de despedida. Aquele olhar... Aquele olhar de alguém perdido no tempo me hipnotiza. E assim, o vagão anda e a vejo ficando cada vez mais para trás, juntamente com sua ‘minutânea’ vida.
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